segunda-feira, novembro 06, 2006

Andaluz


O quão pequenos somos quando tentamos recordar, agradecer e saudar alguém maior que nós mesmos.
Somos palavras quando esse alguém foi Alma. Somos corpo, quando esse alguém foi espírito, somos a rudeza de uma frase quando esse alguém foi Poema.

Por receio de quem espia
Com muita inveja a roer
Não veio naquele dia,
P’ra assim traída não ser
P’la luz que no rosto explende,
P’las jóias a tilintar,
E pelo perfume do Âmbar
A que o corpo rescende:
É que ao rosto, com o manto,
Tapá-lo inda poderia,
E as jóias, entretanto,
Facilmente as tiraria
Mas a fragrância do encanto
P’ra ocultá-la, que faria?


Um dos mais célebres poemas escrito por quem a história do Portugal esqueceu e que consta nas «Mil e uma noites».

O seu Autor

Abu-l-Qasim Muhammad Ibn Abi Amr ‘Abbad Ibn Muhammad Ibn Isma’il al-Lahimi az-Zafir Bhaul al-Lah al-Mu’ayyad bi-l-ah al-Mu’tamid ‘ala al-Lah

Rei, Poeta, nascido em Beja, feito jovem em Silves Rei do Andaluz com trono em Sevilha,
como o poderão Conhecer!?

AL-MU’TAMID

Este é o homem cuja história da vida que teve, é uma das mais belas, talvez por isso um dos seus poemas constar nas «Mil e uma noites» e também uma das mais trágicas, tristes e Dolorosas.

Não sou a autoridade para falar acerca dele, mas como Português que sou, como cidadão com afinidades com a cidade onde nasceu, como homem com orgulho do passado histórico desta nação é com orgulho e com simplicidade que lhe presto esta minha humilde homenagem, recordando-o ou apresentando-o para todos aqueles que se esqueceram que no sangue de Portugal correm os genes de muitas culturas e uma das mais importantes, a Muçulmana.

Ler os poemas de AL-MU’TAMID e conhecer a história da sua vida é sentir as alegrias que viveu e as lágrimas que chorou, quando no seu cativeiro aguardava a chegada da morte, para que o seu espírito pudesse voar, cavalgar pelas terras que foi o sonho, o seu sonho, da terra chamada do Andaluz, que albergava o sul de Espanha, Algarve e Alentejo.

Nasceu em Beja no ano de 1040 no mês de Dezembro. Aos treze anos conquista Silves e torna-se o senhor da cidade e aos 29 torna-se Rei do Andaluz devido à morte do seu pai. Da sua estância em Silves conhece Ibn Ammar homem desde sempre com carácter magnânimo, que se torna o seu amigo mais intimido, e que o vai acompanhar. Muitas vezes devido à sua ambição ultraja al-Mu-tamid. Até que um dia, este num ataque de Raiva, assassina na prisão o homem que mais amava e assim, al-Mu-tamid vê morrer pelas suas próprias mãos o seu melhor amigo e o seu melhor negociador, Ibn Ammar. A sua facilidade de dialogar, mantinha a ténue paz com Afonso VI de Castela.

Até que chegou o dia em que as tréguas foram quebradas e al-Mu-tamid teve de pedir ajuda aos Almorávidas, senhores do Magreb. Estes acabam por trair al-Mu-tamid e fazem um cerco a Sevilha em 1091. Lançando desesperadamente um pedido de ajuda ao seu antigo Inimigo, Afonso VI, que o aceita e disponibiliza um exercito que se mostrou insuficiente, al-Mu-tamid é feito prisioneiro, Vendo alguns dos seus filhos serem mortos na batalha, uma filha a ser vendida como escrava e outros filhos a acompanharem-no para a sua ultima morada a prisão de Agmat.

Cita Adalberto Alves no seu livro AL-MU’TAMID, a descrição de um poeta da corte, a quando da partida da família real para o cativeiro

Tudo poderei esquecer salvo aquela manhã sobre o rio.
Eles amontoavam-se nos barcos como corpos na tumba.
A multidão enchia as margens olhando pensativa
Aqueles que eram pérolas vogando sobre a espuma.
Todos os véus caíram, mesmo os das virgens puras.
Os rostos estavam dilacerados comos as próprias vestes.
Na hora do adeus que elevados gritos!
Homens e mulheres se davam a derradeira saudação.
Partiram as naves que os levavam embalados por cantos
Como camelos levados pela cantilena do seu montador.
Ai, quantas lágrimas arrastadas pelas águas
Quantos corações destroçados iam nas galeras
.”


Verso escrito quando chegou ao desterro

Saíram a implorar a chuva
E eu disse-lhes: Ah quem dera,
Pudesse o meu pranto vos servir
Em troca da chuva que buscais!
Responderam: Em verdade
Tuas lágrimas seriam quanto basta
Porém, de que nos serviriam
se com sangue se encontram misturadas


Durante o seu cativeiro continuou a escrever versos que merecem ser lidos e por tempo e espaço aqui não se encontram.

Por fim, escreve o seu epitáfio

O terrível fim o leão contrário
Destino na vingança
Oceano na generosidade
Plenilúnio na sombra,
Eloquência na multidão.
Chegou o decreto do altíssimo
E, com ele, o meu fim.
Antes de olhar este esquife
Mal sabia eu que altas montanhas
Sobre tábuas repousavam
Que isto te baste tumba:

Sê amável com a nobreza
Que aqui te vai confiada.
Que as taciturnas nuvens
Te reguem entre os raios e trovões,
Chorando por seu irmão,
Que agasalhaste da chuva,
Sob esta laje tão larga,
Com lágrimas matinais e vespertinas.
Até as gotas do orvalho te choram
Derramando-se sobre os astros
Que te não deram sorte.
Para sempre a bênção de Alá
Sobre a tua sepultura
Incontáveis vezes
..para sempre
.”

Morre em 14 de Outubro de 1095

Todos os poemas foram retirados da bibliografia de Adalberto Alves, que aconselho vivamente a ser lida. Aqui irão encontrar a restante obra do poéta, sem duvida a não perder.

Mem Gimel

4 Comments:

Blogger Eddy Nelson said...

Soberbo!
Bem hajas Mem Gimel, por tamanha homenagem.

um abraço

7:26 da tarde  
Blogger Isabel Magalhães said...

segui o link...

vim agradecer e fiquei agradavelmente surpreendida com o que encontrei.

continuação de uma boa noite.

3:21 da manhã  
Blogger Mem Gimel said...

Olá Eddy.

Dizem os sábios que:

“O inicio do declínio de uma civilização começa quando as raízes e a história dessa civilização começam a ser esquecidas”

Em momentos tão conturbados que vivemos, a existência de verdadeiros Homens torna-se necessária Estes fazem-se assumindo a alma ou arquétipo de todos os reais heróis que o inconsciente Português possui. Compete a cada um glorificar o passado, sentir o orgulho das nossas raízes, pois só assim elas continuarão a suportar a arvore que é Portugal.

Obrigado Eddy


Olá Isabel.

Obrigado pela sua presença neste meu mundo de mil sons e mil silêncios.
Nas correntes Herméticas, a diferença entre a palavra e a cor reside só no grau de vibração que ambas apresentam. Assim sendo, a graus diferentes, toda a pintura é um texto e todo o texto é um quadro.

Volte sempre.

1:06 da tarde  
Blogger a rasar o ceu said...

obrigada............

"Mas a fragrância do encanto
P’ra ocultá-la, que faria?”


Tu destapas....o Sol.


beijo.

6:42 da tarde  

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